
Correndo o risco de abrir uma caixa de Pandora, vou dedicar esta entrada ao nosso processo canino de selecção de vídeos musicais para o brand:new. No fundo, vou tentar responder a uma pergunta que já nos foi colocada por diversas vezes via e-mail pelos leitores do blogue e que poderia ser traduzida por: Como é que a cãozoada escolhe os vídeos para o programa?
Em primeiro lugar, é preciso ver o maior número de telediscos possíveis. Para isso, recorremos a uma base de dados, cujo acesso nos foi concedido pela MTV Portugal, e que se chama fastrax (só em 2006, esse site disponibilizou quase 3 milhares de vídeos). Depois, recorremos a uma série de blogues especializados no formato e, quando necessário, temos a lata suficiente para consultar sites de armazenamento de vídeos como o YouTube e o Google Video. Quanto aos vídeos nacionais, as editoras fazem-nos quase sempre chegar às patas qualquer novo produto audiovisual das suas bandas, embora já tenha acontecido sermos nós a solicitar directamente os vídeos quando se tratam de artistas independentes (caso de Carta à Mãe Natureza do Tranquilo). Depois, vêem os critérios editoriais do canil. Quais são eles? Em primeiro lugar, definimos um critério temporal qualitativo: todos os telediscos que passam no brand:new têm de ser recentes e capazes de nos fazerem abanar a cauda. Como é óbvio, por muito que tentemos ser objectivos, é inevitável que a escolha seja sempre caninamente subjectiva, embora colegial. Em segundo lugar, e sem qualquer paternalismo, o nosso nível de «exigência» para os vídeos nacionais é ligeiramente inferior ao dos vídeos estrangeiros. As razões são óbvias: o programa é para o público português e a nossa indústria de vídeos musicais não possui os mesmos meios das suas congéneres estrangeiras. Apesar disso, temos sido ao longo destes onze meses agradavelmente surpreendidos pela qualidade de alguns telediscos tugas - basta dizer que já passaram cerca de 40 no programa, o que representa cerca de 20% do total. Esse valor pode parecer reduzido, mas não é - basta ter em conta que a oferta de vídeos estrangeiros é imensamente superior à dos vídeos nacionais. Por fim, há um critério relacionado com os géneros musicais e que consiste em equilibrar os alinhamentos de cada programa. Idealmente, cada emissão do brand:new procura ter um vídeo de música urbana (rap, hip-hop), um indy (guitarras, novas tendências), um de uma banda ou artista consagrado (esse critério é muito importante, na medida em que não queremos ser cegamente alternativos: não é pelo facto de um artista vender milhões de discos que o seu trabalho é, a priori, de menor qualidade) e, quando possível, um vídeo português (conseguimos isso em quase 50% dos programas, o que, tendo em conta que o brand:new é um programa semanal, é obra).
Voltando ao primeiro critério enunciado, como é que um cão afina o faro para determinar a qualidade de um vídeo musical? Muito simples: utiliza os olhos e os ouvidos. Idealmente, um vídeo musical é muito mais que a soma das suas partes (música e imagens) e é relativamente fácil detectarmos intuitivamente quando um teledisco cumpre esses requisitos. Como é óbvio, nem todas as semanas conseguimos detectar quatro ou cinco obras-primas do calibre de, sei lá, Dayvan Cowboy dos Boards of Canada ou de Bad Mirror dos The Vicious Five. Sendo assim, vimo-nos muitas vezes forçados a decompor os telediscos nas suas partes integrantes (música e imagens) e pesá-los numa balança. Um tema que nos pareça menos interessante, pode ser compensado por um grande vídeo e vice-versa. Mas também aqui, acrescentamos uma nuance: é mais fácil uma música medíocre com um grande vídeo entrar no programa do que um grande tema com um vídeo medíocre. Isto é, em caso de empate, acabamos sempre por tentar privilegiar a imagem ao som, sobretudo por este nos parecer o critério menos explorado na televisão portuguesa (ou «televisão», tout court).
Vou terminar com um exemplo recente de um vídeo que acabou por não ser seleccionado para um dos próximos alinhamento do brand:new, e que me parece ser exemplar da impiedade dos nossos critérios caninos. Há vários meses que o nosso canil andava a salivar com a perspectiva do lançamento de SHOCK VALUE, o novo álbum do grande Timbaland. Bastava estar atento ao seu trabalho nos últimos discos da Nelly Furtado e de Justin Timberlake para justificar a nossa impaciência. Quando, há cerca de dois meses, soubemos que o primeiro single iria contar com os préstimos vocais destes dois artistas, a nossa impaciência passou para um estado quase patológico - era óbvio para nós que só uma hecatombe iria impedir o respectivo vídeo de abrilhantar o nosso programa. O que é que aconteceu há duas semanas? A hecatombe. Apesar do tema «Give It Me» ser (musicalmente) mais uma prova cabal do talento de Timbaland, o teledisco, esse, é de uma pobreza constrangedora. Diria mais: revela uma displiciência aterradora em relação ao formato, limitando-se a colar de uma forma arbitrária uma série de lugares comuns a imagens banais dos protagonistas a interpretarem o tema em playback. Isso é ainda mais grave se tivermos em conta que estamos a falar do produtor mais bem pago da actualidade e que não deve ter havido constrangimentos orçamentais para a produção do vídeo. Aqui, no canil, interpretámos o vídeo como um lamentável sinal de preguiça e, assim, indigno de figurar no alinhamento do programa canino da MTV Portugal. É óbvio que isso não irá tirar o sono ao Timbaland, nem impedir que se vendam milhões de cópias de SHOCK VALUE (e ainda bem). Trata-se apenas de aplicar os princípios de um programa canino que, todas as semanas, faz um genuíno esforço para vos levar o que de mais original e inovador se faz em matéria de vídeos musicais. Deixo-vos ficar de seguida o teledisco de «Give It To Me» para tirarem as vossas próprias conclusões. Foi realizado por um senhor que, com certeza, não ficará para a história: Paul Coy Allen. Experimentem depois ouvir esse grande tema de olhos fechados. Aposto que imagens muito mais agradáveis vos irão surgir.
Comments
Para ser sincero, até a música me parece muito abaixo das possibilidades do Timbaland...
Posted by: Marca X | março 19, 2007 05:45 PM
Eu até acho q este video se podia enquadrar numa possivel versão trimestral do programa. Brand:new Comédia!!
Posted by: Filipa | março 19, 2007 06:32 PM
só posso concordar com vcs..o video deixa mesmo MUITO a desejar..fiz essa experiencia de ouvir a musica de olhos fechados e realmente n é nd disto q me vem à cabeça..isto foi pegar em excertos de concertos e + umas coisinhas e juntar td com a musica como fundo..embora a musica seja mesmo mt boa! continuem o vosso bom trabalho e parabéns pelo programa!
p.s. - para quando mais um passatempo nokia xpress music? xD
Posted by: **Sara** | março 19, 2007 08:24 PM
Meu aplauso para este bravo texto. Raramente se vê alguém (perdão, um canídeo) exprimir-se de forma tão aberta sobre o seu método de trabalho. E o caso do Timbaland foi muito bem sacado.
(Sou uma leitora silenciosa deste canil há vários meses. Não vejo o programa, mas passo aqui todas as semanas para me actualizar musicalmente.)
Posted by: Luisa Amaral | março 19, 2007 11:59 PM
O hip-hop, regra geral, maltrata sempre o formato do videoclip. É triste, mas é verdade.
Posted by: Karlon | março 20, 2007 06:14 PM
O problema do hip-hop é que se tornou num produto comercial de larga escala, e como consequencia disso, os videos passaram todos seguir uma forma padrão americanizada que se impôs. Mas algo tem vindo a mudar e quem consegue sair desse registo "gasto" enfatizando a originalidade , como o Tranquilo ou Lupe Fiasco, só tem beneficios.
Posted by: de Almeida | março 20, 2007 11:12 PM