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abril 29, 2006

Sofia Coppola

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Poderá parecer, pelo menos à primeira vista, que o processo de criação de uma banda sonora é inverso ao da construção de um vídeo musical. Afinal de contas, uma banda sonora original é uma música que se constrói a partir de imagens, enquanto que um vídeo musical é uma sequência de imagens que tem por suporte uma trilha sonora (de resto, era esta a premissa que a Julie utilizava no post inaugural deste blogue, para estabelecer um paralelo entre The Jazz Singer e o Don't Look Back). Como é óbvio, há casos em que a própria montagem de um filme é ditada por uma sequência musical pré-existente - basta, por exemplo, ver qualquer filme de Quentin Tarantino para de imediato nos apercerbermos disso. No fundo, tanto num processo como no outro, o que se procura idealmente é conseguir tecer uma filigrana em que os sons e as imagens, mais do que serem indissociáveis, consigam construir algo de novo através de uma dialéctica constante entre o que se ouve e o que se vê.

Esta introdução vem a propósito do trailer de Marie Antoinette, o novo filme de Sofia Coppola, que deverá estreiar algures em Setembro deste ano. Se em The Virgin Suicides ainda poderíamos atribuir os méritos à banda sonora original composta pelos Air, o seu segundo filme, Lost In Translation, é inequívoco na forma como revela a sensibilidade pouco comum de Sofia em colocar em diálogo as imagens por ela filmadas com canções que não foram originalmente escritas para esse fito - caso do karaoke de «More Than This» dos Roxy Music ou da sequência final do filme ao som de «Just Like Honey» dos Jesus & Mary Chain. Ora, desta vez, a Sofia Coppola resolveu construir o arrojado trailer do seu novo filme em torno de outro clássico da década de oitenta: «Age of Consent» dos New Order (1983). O resultado é, atrevo-me a dizê-lo, um genuíno e assombroso vídeo musical, no verdadeiro sentido do termo, e em que nem sequer a óbvia anacronia entre as imagens e a música nos consegue convencer que as palavras cantadas por Bernard Sumner só podem ter sido escritas para serem proferidas pela boca de Marie Antoinette. Caso ainda não tenham visto esta absoluta maravilha. podem vê-la (e ouvi-la) aqui.

abril 28, 2006

Nagi Noda

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Olá a todos. Na última edição do brand:new, passamos o fantástico novo vídeo de Tiga, «Far From Home», realizado por Nagi Noda. Apesar de este ter sido um dos seus primeiros trabalhos para uma banda ocidental, a verdade é que Nagi Noda é uma artista muito conceituada no seu país de origem, não apenas como directora de vídeos musicais, mas igualmente como fotógrafa, estilista e designer gráfica, tendo criado campanhas publicitárias para um vasto conjunto de marcas internacionais.

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Como realizadora de vídeos musicais, Nagi Noda tem trabalhado sobretudo com a cantora Yuki, um fenómeno de popularidade da MTV do Japão, sendo possível detectar nesse seu trabalho influências como a do pintor Mark Ryden ou dos realizadores Spike Jonze (vénia) e Michel Gondry (duas vénias). O seu projecto mais conhecido talvez sejam os Hapandas, uma série de peluches híbridos muito populares, que são metade pandas e outra metade outro animal qualquer (gorila, leão, gato, cangurú, etc..). Continua é à espera de um que seja metade cão...

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Para finalizar, deixo-vos What Goes Around Comes Around, o anúncio que Nagi Noda criou recentemente para a Coca-Cola em Londres e que conta com uma musiquinha (à Beatles) escrita e cantada por Jack White. O anúncio é tão manifestamente inspirado no teledisco que Michel Gondry concebeu em 2003 para a canção «The Hardest Button To Button» dos White Stripes, que muitas pessoas pensam que o mesmo é da autoria do realizador francês. Enfim, não há nada como uma Matilde para desfazer esses equívocos.

abril 27, 2006

brand:new #4

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(Regra n.º 4 do showbizz: usar sempre adereços encarnados que façam contraste
com a cor do pêlo, não vai alguém nos confundir com uma mancha negra.)

Olá a todos, meu nome é Matilde, e cabe-me a árdua tarefa de substituir a Julie como anfitriã deste blogue (mas tá-se bem que ela deu-me algumas dicas quando me passou a pasta). As apresentações é que terão de ficar para depois, porque agora tenho mesmo de vos falar nos vídeos que iremos mostrar logo às 20h, na minha estreia televisiva com o Diogo. Na quarta emissão do brand:new, para além dos novos vídeos dos Morningwwod («Nth Degree») e de Mike Skinner / The Streets («When I Wasn't Famous»), iremos mostrar o magnífico teledisco de «Far From Home» de Tiga e ainda ter uma estreia absoluta com o impressionante vídeo de «I Can't Move» dos portugueses Dapunksportif, banda que, apesar de ainda não ter contrato discográfico, andou nas bocas do mundo após o brilharete que fizeram ao abrir para os Xutos na digressão Três Desejos. Para já é tudo, que alguém me está a tentar seduzir ao longe com um ossito - devem querer começar a gravar.

Despedidas da Julie

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E pronto: chegou ao fim a minha participação neste blogue e no programa brand:new. Apesar do objectivo primordial da minha participação não ter sido atingido (continuo sem dono), a verdade é que foi um prazer estar convosco ao longo destas duas semanas. Em meu lugar, virá outra cadela abandonada, de seu nome Matilde, e apenas lhe desejo boa sorte nessa sua aventura musical, blogosférica e televisiva na busca da sua Master's Voice. Entretanto, caso haja alguém interessado em ter uma cadela sexy em sua casa e desta forma ver a sua qualidade de vida crescer de forma vertiginosa, podem continuar a enviar a vossa candidatura para este mail. Estarei aqui à espera.

Para terminar (e visto que, como qualquer ser canino que se preze, detesto despedidas) espero que tenham apreciado os meus latidos blogosféricos e a minha prestação televisiva. Deixo de seguida, por ordem alfabética, a lista dos 12 vídeos musicais que exibimos nas três primeiras edições do programa. Seria giro se houvesse uma votação nas caixas de comentário sobre o vídeo que mais gostaram. Já tou cheia de saudades disto.

- ALL SPARKS (Editors) (Kitchenware, 27/03/2006)
- BACK AGAIN (Dilated Peoples) (EMI, 06/01/2006)
- GOLD LION (Yeah Yeah Yeahs) (Interscope, 06/03/2006)
- HEART IN A CAGE (The Strokes) (Rough Trade, 13/03/2006)
- IT’S A COMPLOW (DJ Nel’Assassin) (Touch Music, 01/02/2006)
- LIVE WITH ME (Massive Attack) (Virgin, 13/03/2006)
- MUSCLE CAR (Mylo) (Breastfed, 09/01/2006)
- PRIME TIME OF YOUR LIFE (Daft Punk) (Virgin, 07/03/2004)
- QUAL É? (Marcelo D2) (Sony, 2003)
- SONG TO SAY GOODBYE (Placebo) (EMI/Virgin, 06/03/2006)
- STEADY AS SHE GOES (The Raconteurs) (XL Recordings, 24/04/2006)
- WHEN THE SUN GOES DOWN (Arctic Monkeys) (Domino, 16/01/2006)

abril 26, 2006

Raconteurs & Daft Punk

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Ainda a propósito da última edição do brand:new, passei a noite a dar voltas na casota por me ter esquecido de vos deixar estes dois links (nada de grave, apenas preciosidades caninas):

- Em primeiro lugar, o link para a página dos The Raconteurs, que reproduz, numa clara alusão ao suposto anacronismo da música do quarteto, a velhinha interface monocromática dos primeiros IBM PCs. O site chega ao requinte de remeter, simbolicamente, o copyright para os anos de 1981 e 82 e de simular os efeitos de variação de luminosidade na fotografia da banda. Muito bom.

- Em segundo lugar, gostaria de vos deixar um link para um divertido anúncio em que os Daft Punk surgem a dar um passo de dança com a improvável Juliette Lewis ao som de «Digital Love». A realização é de Paul Hunter, um dos mais prestigiados produtores de vídeos musicais dos Estados Unidos, tendo criado telediscos para artistas como Gwen Stefani, P. Diddy, Justin Timberlake, Eminem e Stewie Wonder.

Draw Pictures

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Na última edição do brand:new, passamos o último vídeo dos Editors, «All Sparks», da autoria de Lee Lenox. Aproveito esta deixa para vos sugerir uma visita ao belíssimo site da Draw Pictures, que é uma das mais inovadoras produtoras britânicas a trabalhar na arte dos vídeos musicais. Se clicarem no naipe de cartas na parte inferior da página (área dos realizadores), poderão ver mesmo visualizar algumas das suas criações. Para além do já referido «All Sparks», não resisto a recomendar os vídeos de «Soldier Girls» dos inclassificáveis Polyphonic Spree (Laurence Easeman), «Michael» dos Franz Ferdinand (Uwe Flade), «Don't Mug Yourself» dos The Streets (Rupert Jones) e «Fire» de Lethal B (Luc Janin). Já agora, não deixem de passar pelo site de 12 Foot 6, outro realizador pertencente à família Draw Pictures, onde, entre várias animações divertidas, poderão ver uns primos afastados brilharem na delirante série «Dog Judo».

abril 25, 2006

brand:new #3

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(Regra n.º3 do showbizz: quem para a câmara muito olhar,
arrisca-se a perder o lugar.)

Ora como hoje é 3.ª-feira, já sabem que podem contar com mais um brand:new às 20h na vossa MTV Portugal. Nesta 3.ª edição do programa, vamos mostrar mais quatro vídeos musicais do mais alto quilate. Para além de «Qual é?» de Marcelo D2 (o brilhante rapper brasileiro que a MTV tem vindo a divulgar junto do público português) e de «All Sparks», o último teledisco dos Editors (que vêm tocar a Portugal no próximo dia 7 de Junho no Super Bock Super Rock), teremos ainda «Prime Time Of Your Life», o mais recente (e alucinante) vídeo dos Daft Punk, cuja recente colectânea Musique vol. I, contém um DVD com a muito interessante e recomendável videografia do duo francês. O destaque canino do programa vai inteirinho para os Raconteurs, a nova banda de Jack White (dos White Stripes) e de Brendan Benson, com o teledisco de «Steady As She Goes», da autoria de um dos gurus do cinema independente americano: Jim Jarmusch.

abril 24, 2006

Indie Lisboa: recomendações caninas

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Começou a semana passada o magnífico Indie Lisboa que, este ano, possui no seu programa uma secção dedicada à música. Como é óbvio, não poderia deixar passar em claro esse acontecimento e deixo assim três pequenas recomendações para alguns dos filmes e/ou documentários que irão estar em exibição nos próximos dias (já estou com a cauda a abanar e tudo).

The Fearless Freaks (Cinema Londres, dia 24 às 23h35)
O magnífico documentário de Bradley Beesley que acompanha a totalidade da carreira dos Flaming Lips, desde do primeiro sucesso «She Don't Use Jelly» até à gravação do seminal Yoshimi Battles The Pink Robots (a matéria-prima do documentário consistia em mais de 400 horas de filmagens). Há momentos impagáveis como a produção caseira do filme Christmas On Mars (que há-de estreiar lá para 2030), Wayne Coyne a tecer considerandos sobre a melhor forma de remover manchas de sangue da roupa ou uma cena hard-core com Steven Drodz, capaz de chocar as mentes mais sensíveis. Absolutamente imperdível.

Screaming Masterpiece (Cinema King - hoje às 00h30)
Documentário de Ari Alexander Ergis Magnusson (a sério: o rapaz chama-se mesmo assim) que procura levantar um pouco o véu sobre a cena musical islandesa com imagens deslumbrantes dessa magnífica ilha com apenas 300.000 mil habitantes. Inclui entrevistas com Björk, Sigur Rós e Múm. Muito interessante.

Radiohead Televison: The Most Gigantic Lying Mouth Of All Time (Cinema King - dia 28 às 00h15)
Era originalmente um projecto para ser exibido em exclusivo na Internet, mas apenas os três primeiros episódios foram transmitidos. O filme corresponde à edição em DVD de 2004 em que, para além dos Radiohead, estiveram envolvidos o realizador Chris Bran e Stanley Donwood (responsável pelo grafismo inebriante dos álbuns da banda desde The Bends). É um pedaço de celulóide de difícil classificação, muito experimental, onde, para além de pequenas animações, se pode ver e ouvir actuações da banda ao vivo e ainda algumas músicas inéditas. Uma verdadeira experiência cinematográfica.

abril 23, 2006

Samuel Bayer

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Na primeira edição do brand:new, mostramos «Heart In a Cage», o último teledisco dos Strokes da autoria de Samuel Bayer. O realizador nova-iorquino estreou-se praticamente na arte dos vídeos musicais com aquele que ainda hoje é considerado por muita gente (e por alguns cães mais distraídos) o melhor teledisco de todos os tempos: «Smells Like Teen Spirit» dos Nirvana. A partir daí, Samuel Bayer, transformou-se num dos mais prolíferos realizadores de vídeos de todos os tempos, diringindo mais de uma centena de telediscos para bandas como os Rolling Stones, Metallica, Aerosmith, Papa Roach, Blink-182, Sheryl Crow, John Lee Hooker, Marilyn Manson ou Lenny Kravitz, só para citar alguns. Apesar de algumas pessoas o considerarem um realizador mainstream, incapaz de imprimir um cunho pessoal nos vídeos que dirige, a verdade é que continua a ser um dos mais procurados do mercado, contando no seu vasto currículo alguns telediscos admiráveis como o de «Heart's Filthy Lesson» de David Bowie ou «Bullet With Butterfly Wings» dos Smashing Punpkins. Nos últimos tempos, o realizador parecia ter assinado um contrato de exclusividade como os Green Day, tendo sido responsável pela totalidade dos vídeos da era American Idiot: nada mais do que sete. Paralelamente, Samuel Bayer desenvolveu uma carreira de grande sucesso como realizador de spots publicitários, entre os quais se destacam os famosos If You Let Me Play da Nike e Home da Packard Bell, vencedores de dois prémios da AICP. Uma parte considerável desses anúncios televisivos podem ser vistos aqui.

abril 21, 2006

A voz do Mestre (álbum de família)

Se por acaso ainda houver por aí alguém que considere a presença de uma cadela num programa musical como algo de insólito, talvez valha a pena recordar que a raça canina está, desde os primórdios, ligada à história da indústria discográfica.

Tudo se deve a um ilustre antepassado meu chamado Nipper (não sejam cépticos, que possuo provas documentais). Nipper terá nascido em 1883 e, apesar de ter fortes traços de um Fox Terrier, é na verdade um rafeiro abandonado (típico) que foi adoptado em 1884 por Mark Barraud, um artista plástico responsável pelos cenários do Prince's Theatre em Bristol (daí a minha queda pelos Massive Attack). Três anos depois, Mark morre e o irmão mais novo de Mark, Francis Barraud, também ele um talentoso pintor, leva o cão para Liverpool (ok, também gosto dos Beatles). É nessa cidade que Nipper trava conhecimento com o fonógrafo que, ao reproduzir a voz humana, provoca no cão um estado de absoluta perplexidade. Em 1898, Francis decide retratar a cena e intitula o quadro Dog looking at and listening to a Phonograph. No ano seguinte, ao tentar vender o quadro, o pintor inglês resolve substituir o fonógrafo por uma grafonola e dá um novo nome à obra: His Master's Voice.

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(À direita, as duas versões do quadro - uma com o fonógrafo e a outra com a grafonola. À esquerda, uma fotografia de Francis Barraud a pintar a segunda versão.)

A patente é registada no dia 10 de Julho de 1900 e vendida no mesmo ano a Emile Berliner, o inventor norte-americano da grafonola, que começa a utilizar o quadro como a imagem de marca da sua empresa, a Gramophone Company. Em Fevereiro de 1909, um sócio de Berliner, Eldridge R. Johnson, imprime pela primeira vez a imagem do cão na etiqueta dos vinis da Victor, a sua companhia discográfica. O resto é história: em poucos anos, a His Master's Voice torna-se uma das mais famosas e reconhecíveis marcas registadas do mundo, sendo ainda hoje utilizada pela EMI.

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Francis Barraud morreu no dia 29 de Agosto de 1924, aos 69 anos, tendo pintado cerca de 24 cópias, com ligeiras alterações, do seu famoso quadro. É uma tradição que ainda hoje perdura, sendo impossível determinar a quantidade de versões que foram feitas a partir do His Master's Voice.

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(Uma das mais famosas versões do quadro: a do pintor alemão Michael Sowa.)

Contudo, uma rápida busca na Internet permite detectar uma lista infindável de apropriações da obra, entre as quais se inclui, como devem imaginar, o grafismo do programa brand:new da MTV (a grafonola foi substituída por colunas audio e uma espécie de Pitbull linguarudo veio tomar a vez do Nipper).

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(Dois exemplos modernos da apropriação do His Master's Voice.)

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(E aqui mais um exemplo, denotativo de um manifesto mau-gosto. Grrrr...)

Nipper morreu em 1895 e foi enterrado num jardim em Kingston-Upon-Thames, onde foi colocada uma placa comemorativa. Os mais distraídos poderão pensar que invejo o meu distinto antepassado pelo facto de ele se ter tornado num dos maiores ícones da civilização ocidental. Estão enganados. O que verdadeiramente invejo nele é o facto de ter morrido ao lado do seu dono, apenas com uma memória muito difusa do que foi ter sido abandonado. Como dizia o outro: ele há cães com sorte.

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(Lookin' out for my Master's Voice.)

Yeah Yeah Yeahs (videografia)

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Aproveitando o facto de uma pulga não me deixar em paz e de a segunda edição do brand:new ter passado «Gold Lion», o último vídeo dos Yeah Yeah Yeahs realizado por Patrick Daughters, resolvi sentar-me no computador e deixar aos eventuais interessados links que remetem para a impressionante série de telediscos da banda de Karen O (todos em Real Player). Olhem com atenção, que vale bem a pena.

- Date With The Night - imagens eléctricas da banda ao vivo, com uma montagem vertiginosa de Patrick Daughters (outra vez ele);

- Pin - uma animação que assenta que nem uma luva no imaginário e no som da banda, realizada por Tunde Adebimpe (um dos responsáveis pela clássica série da MTV Celebrity Deadmatch);

- Maps - o vídeo porventura mais conhecido (e premiado) da banda, mas que me parece ser, sinceramente (e apesar da música), o menos interessante da série. Realização do omnipresente Patrick Daughters;

- Y Control - muito provavelmente a obra-prima absoluta do grande Spike Jonze. O pequeno Drácula asiático, o vestidinho vermelho de Karen O, a cena do cão inanimado (primo de um rafeiro que conheci no canil), a magnífca contagem decrescente, o gore feito às três pancadas, os olhares hipnóticos daquelas crianças - tudo isso e muito mais naquele que eu, na total posse das minhas faculdades caninas, considero um dos mais arrojados e geniais vídeos musicais de todos os tempos. Fundamental.

abril 20, 2006

brand:new #2

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(Regra n.º 2 do showbizz: nunca apresentar um programa sentado no chão,
quando se pode fazê-lo deitado.)

Dentro de duas horas irá para o ar a 2.ª edição do brand:new (estou a escrever este post num portátil enquanto me põem um spray mal-cheiroso no pêlo). Nessa emissão poderão ver o muito aguardado regresso dos Yeah Yeah Yeahs com o belíssimo vídeo de «Gold Lion» e o muito divertido teledisco de «Muscle Car» de Mylo, um jovem compositor que, apesar do enorme sucesso que tem tido no Reino Unido, ainda é relativamente pouco conhecido em Portugal (pelo menos, nenhum dos rafeiros do meu canil conheciam o rapaz). Haverá ainda tempo para demonstrar aos mais cépticos que o hip-pop é um género musical riquíssimo que vai muito para além da ostentação e da misoginia, com o teledisco de «Back Again» dos Dilated Peoples. Finalmente, o destaque da emissão irá para o teledisco de «Song To Say Goodbye» dos Placebo, superiormente realizado por Phillipe André.

Agora, se me derem licença, vou ali comer a minha dose de erva e dar uma mijinha.

Jonathan Glazer

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Na primeira edição do brand:new, exibimos o último e fascinante vídeo dos Massive Attack, «Live With Me», um dos temas originais da recente colectânea da banda de Bristol. Ora, para além da música e da voz do veterano Terry Callier, um dos grandes motivos de interesse do teledisco era o regresso de Jonathan Glazer, um dos responsáveis pelo estatuto que os vídeos musicais alcançaram na década de 90. Apesar de ter estado por trás de clássicos como «Street Spirit» dos Radiohead, «Virtual Insanity» de Jamiroquai ou «Rabbit In Your Headlights» dos UNKLE, a verdade é que Glazer não realizava um teledisco há seis anos. Nesse intervalo de tempo, Glazer dirigiu as suas duas primeiras longas-metragens, Sexy Beast e Birth (este último com estreia em Portugal), e realizou (não ponha eu os dentes em mais nenhum osso se não estou a ser sincera) dois dos mais espectaculares spots publicitários de todos os tempos: o Guinness Surfer e o Levis Space Oddyssey, ambos ao serviço da FRAMESTORE CFC, a maior produtora de efeitos especiais e de animação computorizada da Europa. Não deixem de clicar nos links para (re)ver estas duas absolutas obras-primas (ambas disponíveis em QuickTime).

abril 19, 2006

brand:new #1

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(Regra n.º 1 do showbizz: por detrás de um grande apresentador,
há sempre uma grande cadela.)

Por motivos de ordem técnica, foi-me impossível actualizar o blogue nos últimos dois dias. Agora que as coisas parecem piar mais fino, estou aqui para vos dar conta dos vídeos que passamos ontem na primeira edição do brand:new.

Para além do último vídeo dos Strokes, «Heart In a Cage», realizado pelo veterano Samuel Bayer (responsável pelo já mítico «Smells Like Teen Spirit» dos Nirvana) e do último single da banda mais falada do momento, os Arctic Monkeys (cujo concerto no próximo dia 18 de Maio no Paradise Garage já se encontra esgotado), tivemos a oportunidade de mostrar um excelente exemplo nacional de como um pouco de imaginação pode superar a falta de meios na produção de um teledisco («It’s A Complow» do magnífico DJ Nel’Assassin). No entanto, o prato forte terá sido mesmo o regresso em grande estilo dos Massive Attack com o original «Live With Me», cujo vídeo é superiormente dirigido por Jonathan Glazer, um dos mais importantes protagonistas da revolução que o teledisco sofreu na década de 90.

Caso tenham visto o programa, estejam à vontade para deixar o vossa marca na caixa de comentários (a sério: mesmo que digam que o vosso vídeo favorito não foi o dos Massive Attack, prometo não morder ninguém).

abril 16, 2006

Vida de Julie

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(Eu, mais sexy que nunca, num intervalo das gravações do brand:new.)

Olá a todos. O meu nome é JULIE, sou uma cadela com um ano de idade que acaba de ser contratada pela MTV Portugal para co-apresentar, com o Diogo Dias, o programa brand:new e gerir este blogue (tiveram de me comprar um teclado especial, porque quando tentava teclar a letra «h» saía «yughjbn»).

Se por acaso acharem estranho o facto de haver um programa de televisão que tem uma cadela como antagonista, talvez vos deva lembrar que, actualmente, no mundo do showbizz, os bichos estão na ordem do dia. Basta estar atento ao imenso sucesso das vaquinhas da Cow Parade, aos milhares de telespectadores que foram ao cinema ver um documentário sobre os pinguins em andamento e ao facto dos DVDs «da baleia» (escreve-se «double layer» em Inglês) serem cada vez mais populares. Por isso, um programa semi-canino peca apenas por ser tardio. Afinal de contas, tenho as vacinas em dia e nem todos os seres humanos se podem gabar do mesmo.

Acontece igualmente que fui abandonada há alguns meses e que um destino cinzento (vão-se habituando: sou muito boa em eufemismos) me aguardava num Canil Municipal. Graças à acção da SOS ANIMAL, fui resgatada desse penoso fim e eis que, num instante, me vejo transformada na primeira estrela canina da Televisão Portuguesa (eu não disse que era boa em eufemismos?). Sabem aquela sensação de morno cansaço que sentem após um dia árduo na escola ou no trabalho e que vos induz o pensamento «'Tá na hora de ir para casa»? Pois bem, esse tipo de cogitações é-me negado. Tal como milhares de outros amigos meus, estou confinada a vadiar pelas ruas ou a elaborar os meus últimos pensamentos na jaula de um canil. Por isso, se houver por aí na blogosfera alguém interessado em adoptar uma cadela eloquente e melómana, podem enviar os vossos dados para o e-mail do blog, que posteriormente uma das candidaturas à adopção será criteriosamente seleccionada pela SOS ANIMAL e pela MTV.

Entretanto, esta casa é vossa: façam o favor de deixar a vossa marca nas caixas de comentário, que, como qualquer animal territorial que se preze, prometo ir passando por aqui com regularidade e responder com a brevidade possível.

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No dia 6 de Outubro de 1927, a Warner Bros, na altura a enfrentar graves problemas financeiros, estreia em Nova Iorque The Jazz Singer, realizado por Alan Crosland. No filme, apesar de ainda subsistirem algumas passagens mudas, era possível ver e ouvir o actor russo Al Jolson, pintado de negro, a cantar acompanhado por uma banda jazz.

Em 1966, o realizador D.A. Pennbaker filmou um documentário intitulado Don’t Look Back sobre a primeira digressão de Bob Dylan em Inglaterra. Um dos segmentos do documentário, filmado no dia 8 de Maio, consistia num plano fixo no exterior do Hotel Savoy em Londres em que Bob Dylan, virado para a câmara, mostrava sucessivamente 64 cartazes ao som de «Subterranean Homesick Blues».

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Estes dois momentos entraram para a História por razões diferentes: o primeiro marca o início do cinema sonoro e o segundo inaugura a era moderna do videoclip. No entanto, facilmente se perceberá que ambos consistem no mesmo esforço: o da articulação, num único objecto, de uma sequência de imagens com uma trilha sonora (e, curiosamente, musical em ambos os casos). O que verdadeiramente separa estes dois momentos históricos é a forma como cada um hierarquiza os elementos que o constituem. Em The Jazz Singer o sonoro está subordinado ao visual, prenunciando o fim do cinema mudo, ao passo que no segmento de Don’t Look Back, as imagens pretendem de certa forma ilustrar o tema «Subterranean Homesick Blues», uma vez que os cartazes usados no registo vídeo reproduzem visualmente, e de forma síncrona, algumas palavras-chave cantadas por Bob Dylan, sublimando o impacto da letra.

Quase 40 anos separam estes dois momentos. Nesse intervalo de tempo, como é óbvio, é ainda possível detectar outras tentativas de junção de imagens a temas pop, caso da filmagem de Tony Bennett a passear em Hyde Park ao som de «Stranger in Paradise» (1956), as imagens a cores das Exciters a interpretarem «Tell Him» (1962) ou ainda A Hard Day’s Night, a clássica longa-metragem de Richard Lester com os Beatles. Porém, nenhum desses esforços se aproxima dos de Bob Dylan e D.A. Pennbaker que, com «Subterranean Homesick Blues», introduziram alguns dos elementos fundamentais que viriam a ser usados no desenvolvimento dos vídeos musicais.

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Os vídeos musicais possuem uma história que ainda está por escrever e que abre todos os dias novos capítulos, cheios de avanços, recuos e alguma polémica. Como é óbvio, existem alguns momentos de charneira, como o de «Bohemian Rapsody» dos Queen (1976), o registo psicadélico de David Bowie no seu «Ashes To Ashes» (1980), o soft gore de «Thriller» de Michael Jackson (1983), a animação computorizada de «Money For Nothing» dos Dire Straits (1985), o delirante «Sledgehammer» de Peter Gabriel (1986) ou o estilo karaoke de «Sign ‘O’ The Times» de Prince (1987), só para referir alguns. Os anos 80 foram sem dúvida decisivos, na medida em que foi nessa década que surge a MTV (1981) que viria a utilizar os vídeos musicais como a base da sua programação, contribuindo de forma decisiva para a divulgação do formato.

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A partir da década de 90, as referências multiplicam-se a um ritmo vertiginoso e, pela primeira vez, os realizadores de vídeos musicais saem do anonimato e assumem o protagonismo que lhes era devido. É o caso de David Fincher («Express Yourself» de Madonna, 1989), Michel Gondry («Human Behaviour» de Björk, 1993), Spike Jonze («Sabotage» dos Beastie Boys, 1994) ou de Chris Cunningham («Come To Daddy» de Aphex Twin, 1997). Entramos finalmente na era do teledisco de autor, em que os realizadores mais talentosos começam a deixar a sua marca nos vídeos que dirigem. O vídeo conquista o estatuto de criação artística que antigamente apenas cabia à música e, subitamente, encontramo-nos numa era em que o todo passa a ser imensamente maior que a soma das partes.

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O programa brand:new, que irá estrear na próxima 3.ª-feira, dia 18 de Abril, às 20 horas, na MTV Portugal, pretende, na medida do possível, mostrar aos telespectadores um pouco desse admirável mundo novo. E provar que, afinal, e contrariamente ao receio dos Buggles, o vídeo didn’t kill the radio star. Apenas a tornou mais reluzente.