Sofia Coppola

Poderá parecer, pelo menos à primeira vista, que o processo de criação de uma banda sonora é inverso ao da construção de um vídeo musical. Afinal de contas, uma banda sonora original é uma música que se constrói a partir de imagens, enquanto que um vídeo musical é uma sequência de imagens que tem por suporte uma trilha sonora (de resto, era esta a premissa que a Julie utilizava no post inaugural deste blogue, para estabelecer um paralelo entre The Jazz Singer e o Don't Look Back). Como é óbvio, há casos em que a própria montagem de um filme é ditada por uma sequência musical pré-existente - basta, por exemplo, ver qualquer filme de Quentin Tarantino para de imediato nos apercerbermos disso. No fundo, tanto num processo como no outro, o que se procura idealmente é conseguir tecer uma filigrana em que os sons e as imagens, mais do que serem indissociáveis, consigam construir algo de novo através de uma dialéctica constante entre o que se ouve e o que se vê.
Esta introdução vem a propósito do trailer de Marie Antoinette, o novo filme de Sofia Coppola, que deverá estreiar algures em Setembro deste ano. Se em The Virgin Suicides ainda poderíamos atribuir os méritos à banda sonora original composta pelos Air, o seu segundo filme, Lost In Translation, é inequívoco na forma como revela a sensibilidade pouco comum de Sofia em colocar em diálogo as imagens por ela filmadas com canções que não foram originalmente escritas para esse fito - caso do karaoke de «More Than This» dos Roxy Music ou da sequência final do filme ao som de «Just Like Honey» dos Jesus & Mary Chain. Ora, desta vez, a Sofia Coppola resolveu construir o arrojado trailer do seu novo filme em torno de outro clássico da década de oitenta: «Age of Consent» dos New Order (1983). O resultado é, atrevo-me a dizê-lo, um genuíno e assombroso vídeo musical, no verdadeiro sentido do termo, e em que nem sequer a óbvia anacronia entre as imagens e a música nos consegue convencer que as palavras cantadas por Bernard Sumner só podem ter sido escritas para serem proferidas pela boca de Marie Antoinette. Caso ainda não tenham visto esta absoluta maravilha. podem vê-la (e ouvi-la) aqui.
























