No dia 6 de Outubro de 1927, a Warner Bros, na altura a enfrentar graves problemas financeiros, estreia em Nova Iorque The Jazz Singer, realizado por Alan Crosland. No filme, apesar de ainda subsistirem algumas passagens mudas, era possível ver e ouvir o actor russo Al Jolson, pintado de negro, a cantar acompanhado por uma banda jazz.
Em 1966, o realizador D.A. Pennbaker filmou um documentário intitulado Don’t Look Back sobre a primeira digressão de Bob Dylan em Inglaterra. Um dos segmentos do documentário, filmado no dia 8 de Maio, consistia num plano fixo no exterior do Hotel Savoy em Londres em que Bob Dylan, virado para a câmara, mostrava sucessivamente 64 cartazes ao som de «Subterranean Homesick Blues».

Estes dois momentos entraram para a História por razões diferentes: o primeiro marca o início do cinema sonoro e o segundo inaugura a era moderna do videoclip. No entanto, facilmente se perceberá que ambos consistem no mesmo esforço: o da articulação, num único objecto, de uma sequência de imagens com uma trilha sonora (e, curiosamente, musical em ambos os casos). O que verdadeiramente separa estes dois momentos históricos é a forma como cada um hierarquiza os elementos que o constituem. Em The Jazz Singer o sonoro está subordinado ao visual, prenunciando o fim do cinema mudo, ao passo que no segmento de Don’t Look Back, as imagens pretendem de certa forma ilustrar o tema «Subterranean Homesick Blues», uma vez que os cartazes usados no registo vídeo reproduzem visualmente, e de forma síncrona, algumas palavras-chave cantadas por Bob Dylan, sublimando o impacto da letra.
Quase 40 anos separam estes dois momentos. Nesse intervalo de tempo, como é óbvio, é ainda possível detectar outras tentativas de junção de imagens a temas pop, caso da filmagem de Tony Bennett a passear em Hyde Park ao som de «Stranger in Paradise» (1956), as imagens a cores das Exciters a interpretarem «Tell Him» (1962) ou ainda A Hard Day’s Night, a clássica longa-metragem de Richard Lester com os Beatles. Porém, nenhum desses esforços se aproxima dos de Bob Dylan e D.A. Pennbaker que, com «Subterranean Homesick Blues», introduziram alguns dos elementos fundamentais que viriam a ser usados no desenvolvimento dos vídeos musicais.

Os vídeos musicais possuem uma história que ainda está por escrever e que abre todos os dias novos capítulos, cheios de avanços, recuos e alguma polémica. Como é óbvio, existem alguns momentos de charneira, como o de «Bohemian Rapsody» dos Queen (1976), o registo psicadélico de David Bowie no seu «Ashes To Ashes» (1980), o soft gore de «Thriller» de Michael Jackson (1983), a animação computorizada de «Money For Nothing» dos Dire Straits (1985), o delirante «Sledgehammer» de Peter Gabriel (1986) ou o estilo karaoke de «Sign ‘O’ The Times» de Prince (1987), só para referir alguns. Os anos 80 foram sem dúvida decisivos, na medida em que foi nessa década que surge a MTV (1981) que viria a utilizar os vídeos musicais como a base da sua programação, contribuindo de forma decisiva para a divulgação do formato.

A partir da década de 90, as referências multiplicam-se a um ritmo vertiginoso e, pela primeira vez, os realizadores de vídeos musicais saem do anonimato e assumem o protagonismo que lhes era devido. É o caso de David Fincher («Express Yourself» de Madonna, 1989), Michel Gondry («Human Behaviour» de Björk, 1993), Spike Jonze («Sabotage» dos Beastie Boys, 1994) ou de Chris Cunningham («Come To Daddy» de Aphex Twin, 1997). Entramos finalmente na era do teledisco de autor, em que os realizadores mais talentosos começam a deixar a sua marca nos vídeos que dirigem. O vídeo conquista o estatuto de criação artística que antigamente apenas cabia à música e, subitamente, encontramo-nos numa era em que o todo passa a ser imensamente maior que a soma das partes.

O programa brand:new, que irá estrear na próxima 3.ª-feira, dia 18 de Abril, às 20 horas, na MTV Portugal, pretende, na medida do possível, mostrar aos telespectadores um pouco desse admirável mundo novo. E provar que, afinal, e contrariamente ao receio dos Buggles, o vídeo didn’t kill the radio star. Apenas a tornou mais reluzente.
Comments
Fiquei curioso. Seria interessante se abordassem igualmente no programa até que ponto um vídeo pode levar alguém a gostar de uma música. Estou a pensar no caso do Aphex Twin, por exemplo.
Posted by: Rui AC | abril 18, 2006 10:00 AM
Claro que sim, Rui. Mas mais interessante ainda são os casos em que tanto o vídeo com a música se fundem num só com grandes efeitos. Pensa na Björk ou nos Franz Ferdinand, por exemplo.
Posted by: Julie | abril 20, 2006 12:07 AM
Gostei muito do texto e de todo o conceito do programa, mas penso que tem alguma falta de precisão quanto a um facto. É verdade que muitas vezes o "Subterranean Homesick Blues" é considerado o primeiro videoclip, mas na realidade o seu formato não foi pioneiro. O video do Pennbaker (que é de 66 e não de 65), apesar de importantissimo na difusão do género tem como maior mérito "apenas" expandir a linguagem do videoclip, e até ajudar a cimentar esse conceito, mas a linguagem que hoje conhecemos teve como seu maior pioneiro o Richard Lester nos filmes dos Beatles "Hard Day´s Night" e "Help!", respectivamente de 64 e 65. De qualquer das maneiras, o videoclip como é hoje, ou seja, como objecto de difusão e publicidade de uma banda surgiu também pelas mãos dos Beatles, desta feita em 1966, quando eles já não tinham capacidade nem paciencia para ir tocar a estações televisivas de todo mundo, e por isso decidiram fazer 2 vídeos para as musicas "Rain" e "Paperback Writer", apenas para poderem ficar em casa com a passar férias... Trinta anos mais tarde George Harrison admitiria, "In a way, we invented MTV..." :P
Posted by: Mario Carvalhal | abril 20, 2006 02:24 AM
Mário: muito obrigado pela correcção (lapso canino entretanto já corrigido). O vídeo de HSB de Bob Dylan é de facto de 66 e não 65.
Quanto ao momento inaugural do vídeo musical, é óbvio que o terreno é fértil para a polémica, e o texto é relativamente cauteloso nesse aspecto, chegando inclusive a mencionar os Beatles e o Richard Lester.
Talvez o que torna o vídeo de HSB tão marcante é a tremenda influência que ele teve nos telediscos que surgiriam depois. E penso ser aí que se deve avaliar a pertinência de um hipotético momento inaugural.
Para terminar: conheço o vídeo de Paperback Writer, mas desconhecia por completo o de «Rain». Obrigado pela dica. Vou já investigar.
Posted by: Julie | abril 20, 2006 02:43 AM