Se por acaso ainda houver por aí alguém que considere a presença de uma cadela num programa musical como algo de insólito, talvez valha a pena recordar que a raça canina está, desde os primórdios, ligada à história da indústria discográfica.
Tudo se deve a um ilustre antepassado meu chamado Nipper (não sejam cépticos, que possuo provas documentais). Nipper terá nascido em 1883 e, apesar de ter fortes traços de um Fox Terrier, é na verdade um rafeiro abandonado (típico) que foi adoptado em 1884 por Mark Barraud, um artista plástico responsável pelos cenários do Prince's Theatre em Bristol (daí a minha queda pelos Massive Attack). Três anos depois, Mark morre e o irmão mais novo de Mark, Francis Barraud, também ele um talentoso pintor, leva o cão para Liverpool (ok, também gosto dos Beatles). É nessa cidade que Nipper trava conhecimento com o fonógrafo que, ao reproduzir a voz humana, provoca no cão um estado de absoluta perplexidade. Em 1898, Francis decide retratar a cena e intitula o quadro Dog looking at and listening to a Phonograph. No ano seguinte, ao tentar vender o quadro, o pintor inglês resolve substituir o fonógrafo por uma grafonola e dá um novo nome à obra: His Master's Voice.

A patente é registada no dia 10 de Julho de 1900 e vendida no mesmo ano a Emile Berliner, o inventor norte-americano da grafonola, que começa a utilizar o quadro como a imagem de marca da sua empresa, a Gramophone Company. Em Fevereiro de 1909, um sócio de Berliner, Eldridge R. Johnson, imprime pela primeira vez a imagem do cão na etiqueta dos vinis da Victor, a sua companhia discográfica. O resto é história: em poucos anos, a His Master's Voice torna-se uma das mais famosas e reconhecíveis marcas registadas do mundo, sendo ainda hoje utilizada pela EMI.

Francis Barraud morreu no dia 29 de Agosto de 1924, aos 69 anos, tendo pintado cerca de 24 cópias, com ligeiras alterações, do seu famoso quadro. É uma tradição que ainda hoje perdura, sendo impossível determinar a quantidade de versões que foram feitas a partir do His Master's Voice.

Contudo, uma rápida busca na Internet permite detectar uma lista infindável de apropriações da obra, entre as quais se inclui, como devem imaginar, o grafismo do programa brand:new da MTV (a grafonola foi substituída por colunas audio e uma espécie de Pitbull linguarudo veio tomar a vez do Nipper).


Nipper morreu em 1895 e foi enterrado num jardim em Kingston-Upon-Thames, onde foi colocada uma placa comemorativa. Os mais distraídos poderão pensar que invejo o meu distinto antepassado pelo facto de ele se ter tornado num dos maiores ícones da civilização ocidental. Estão enganados. O que verdadeiramente invejo nele é o facto de ter morrido ao lado do seu dono, apenas com uma memória muito difusa do que foi ter sido abandonado. Como dizia o outro: ele há cães com sorte.

Comments
julie, tenho uma escultura do teu antepassado em minha casa. um dos meus filhos tratou-a como se de um cãozinho de estimação se tratasse. um dia, em que o transportava ao colo, o cão caiu e partiu-se. depois foi colado, mas não regressou às brincadeiras do costume. claro que nada disto teria acontecido se fosses tu, ou um outro cãozinho de verdade.
Posted by: susana | abril 21, 2006 03:17 PM
Vasculhei minha colecção de cds e para grande alegria minha encontrei um com a marca do Nipper: southpaw grammar do morrissey.
Posted by: Paulo | abril 23, 2006 11:47 AM
Susana: há por aí quem faça verdadeiras colecções com items do Nipper.
Paulo: Sei que a edição do disco como o logo da His Master's Voice foi uma exigência de Morrissey. Parece que o antigo vocalista dos Smiths é um grande fã do meu ilustro antepassador.
Posted by: Julie | abril 23, 2006 04:41 PM